Ornitólogos têm uma relação de amor e ódio com os nomes populares dados às aves. Esses nomes variam muito geograficamente, causando bastante confusão, mas ao mesmo tempo carregam consigo uma bagagem riquíssima de informações. Não vou me alongar muito no assunto,
pois já escrevi sobre a importância dos nomes populares no ano passado. A idéia hoje é falar um pouco dos nomes científicos, que tanto facilitam a vida dos pesquisadores mundo afora.

No meio científico, cada espécie de ave (assim como todos os outros seres vivos) recebe um nome, que é único e vale em todo o mundo. Este nome é formado por duas palavras: a primeira é o gênero ao qual a espécie pertence, e a segunda palavra é aquela que vai definir a espécie. No exemplo acima, Furnarius é o gênero ao qual o João-de-barro pertence, uma palavra que vem do latim "furnus" = forno. Ou seja, este é o gênero das aves "forneiras", uma referência ao seu ninho de barro em formato de forno. Também pertencem a este gênero o Casaca-de-couro-da-lama (Furnarius rufus), o Joãozinho (Furnarius minor) e muitas outras. A segunda palavra, "rufus", também vem do latim e significa "vermelho" ou "corado".
Um nome científico completo inclui também a pessoa que descreveu a espécie pela primeira vez, assim como o ano em que isto foi divulgado em uma publicação de cunho científico. O João-de-barro foi descrito pela primeira vez por Johann Friedrich Gmelin, um naturalista alemão, em 1788. Agora, um detalhe importante: seu nome aparece entre parênteses! Isso significa que, apesar de Gmelin ser considerado o "autor" da espécie, o nome dela já sofreu alterações. Originalmente o João-de-barro havia sido descrito como Merops rufus. Mas, ao longo do tempo, outros pesquisadores chegaram a conclusão que ele pertencia ao gênero "Furnarius", por isso a mudança de nome.
Nem sempre é fácil entender o significado de um nome científico. Os autores podem escolher qualquer combinação de palavras, contanto que estejam em latim ou latinizadas. Lembrando que o nome do gênero ao qual a espécie pertence deve ser respeitado (a menos que seja a primeira espécie descrita de um novo gênero, aí o autor pode inventar o primeiro nome também). Muitos aproveitam a ocasião para homenagear pessoas queridas ou cientistas reconhecidos. Veja alguns exemplos:
Swainsonii - de Willian Swainson, naturalista inglês (exemplo: Miyarchus swainsonii)
Zenaida - de Zénaïde Laetitia Julie Bonaparte, princesa da Espanha (exemplo: Zenaida auriculata)
Brissonii - de Mathurin Jacques Brisson, ornitólogo francês (exemplo: Cyanoloxia brissonii)
Lawrencii - de George Newbold Lawrence, ornitólogo americano (exemplo: Turdus lawrencii)
Nattereri - de Johann Natterer, naturalista austríaco (exemplo: Lanio nattereri)
Em alguns casos o nome científico escolhido tem tudo a ver com a espécie. Muitos nomes descrevem a plumagem:
Rufiventris - rufi = avermelhado, ventris = ventre (exemplo: Turdus rufiventris)
Lactea - branco, como leite (exemplo: Polioptila lactea)
Cyanocorax - cyano = azul escuro, corax = gralha (exemplo: Cyanocorax cristatellus)
Flavirostris - flavo = amarelo, rostrum = bico (exemplo: Arremon flavirostris)
Melanops - melas = preto, ops = face (exemplo: Lanio melanops)
Punctulatus - pontilhado (exemplo: Hylophylax punctulatus)
Fasciata - fasciatus = com faixas, estriado (exemplo: Neothraupis fasciata)
Squammata - com escamas (plumagem que parece com escamas) (exemplo: Columbina squammata)
Outros nomes têm relação com a morfologia da ave:
Cristatus - crista (exemplo: Colinus cristatus)
Major - maior, grande (exemplo: Taraba major)
Caudacutus - cauda = cauda, acutus = pontiagudo (exemplo: Sclerurus caudacutus)
Minuta - pequena (exemplo: Sporophila minuta)
Para fechar: sabia que no Brasil vive a ave com o nome científico mais comprido de todos? É a pequena Peitica-de-chapéu-preto (Griseotyrannus aurantioatrocristatus). Calma. O nome não é tão complicado assim:
- Griseus = cinza
- Tyrannus = do gênero Tyrannus = tirano, déspota (em função do comportamento mais agressivo destas aves em relação às outras espécies)
- Aurantio = laranja
- Atro = negro
- Cristatus = crista
Os exemplos daqui tirei do livro
Helm Dictionary of Scientific Bird Names, de James A. Joblin. Dá para passar horas só passeando pelas páginas e descobrindo a origem dos mais diversos nomes científicos de aves. Um mais curioso que o outro!